Analisada friamente, a trajetória de Roberto Rivellino torna quase impossível defini-lo como um ídolo do Corinthians. Nascido em uma família de palmeirenses, foi para o Parque São Jorge depois de ser ignorado pelo time da infância. A dificuldade em chegar à Fazendinha fez da sua tentativa de defender o Corinthians um tiro único: só ficaria se fosse bem recebido. O clube lhe abriu as portas e Rivellino ficou. Passou pelas categorias de base, subiu ao profissional e construiu sua carreira na mais dolorosa fase da história alvinegra. O jejum de títulos e a idolatria pelo “Reizinho do Parque” cresciam na mesma proporção. Um amor quase transformado em ódio quando a fila completou 20 anos, em 1974, ou no momento em que ele trocou São Paulo pelo Rio de Janeiro, para defender o Fluminense. A história do Rivellino jogador acabou sem títulos no Corinthians. A do maior ídolo da Fiel é alimentada diariamente. Uma trajetória contada pelo seu personagem principal nesta entrevista.
O que representa o Corinthians?
Tudo. Para dentro da minha profissão, tudo. Foi a segunda casa, o time que me abriu as portas para eu jogar duas Copas, numa seleção considerada com a melhor de todos os tempos. Então, o Corinthians representa tudo na minha vida.
Com foi o começo, quando era um garoto que começou e se destacar nos aspirantes?
Foi natural porque você está lá desde pequeno, trabalha para isso. Mas, para mim, foi importante essa história de aspirantes porque a torcida começou a me conhecer desde cedo. Foi uma subida normal, não é aquela que ele sai do sub-17 e não sabe o que vai acontecer. Eu ia jogar o campeonato juvenil, um jogador machucou e me puxaram para o profissional. Mas eu jogava nos aspirantes.
O aspirante era bom?
Era ótimo, maravilhoso. Veja que, hoje, tem juniores que ninguém conhece. O Zico disse que quer aproveitar os jogadores e colocar no time de cima. Por isso é importante o aspirante. Dá o contato para o treinador ver o moleque jogar, a torcida. Não sei por que acabou. Tem tanto sub na vida e o garoto sobe e não é usado. E muito clube preocupado em fazer trabalho de base. Quando subir, ele já tem até uma penetração maior.
Isso faz diferença para o garoto entender o tamanho e a importância do clube?
Hoje o garoto entende. Ele sabe o que é o Corinthians, o Flamengo, o São Paulo. O que é em termos de cobrança. Mas o que eu acho melhor é a convivência maior. Ele ficava entre os profissionais, mas jogava nos aspirantes. Na época não tinha reservas, substituições. Jogava Amaro, Édson, Manuelzinho, Pereirinha, Manuel Lima. Uma pancada que não jogava no time de cima estava nos aspirantes.
Você foi um dos principais jogadores da história do Corinthians, para muitos, o principal. Mas não conquistou nenhum título. Fica a sensação de que faltou algo?
Lógico. Na época se preocupava só com esse título. Não era para ser. Tem gente que jogou um mês no Corinthians e foi campeão paulista. Eu joguei 11 anos e não consegui. Não sei por quê. Eu fico triste mais do que qualquer um. Mas não foi possível.
Você acha que foi injustiçado?
Fizemos de tudo. Queríamos mesmo ser campeões. Mas demos um azar tremendo. O Santos era Pelé. O São Paulo montou um time bom em 70. O Palmeiras tinha a Academia. Até a Portuguesa montou uma equipe que foi campeã. Até isso eu dei azar. O Corinthians sempre corria atrás e não conseguia.
Como foi a sensação de jogar contra o Corinthians? Logo em sua primeira partida, fez três gols.
É normal, porque você é um profissional. Eu nunca esperava sair do Corinthians, porque não era hábito na época. Eu esperava encerrar a carreira no Corinthians. Mas, de repente, estava no Fluminense e joguei o futebol de sempre. O que aconteceu no Fluminense é que montaram uma equipe. O presidente montou uma equipe forte. No Corinthians não montava. Claro, estava satisfeito de jogar no Fluminense pelo modo como abriram as portas. Mas é triste jogar contra o time que te revelou, pelo qual você tem carinho.
Na época houve bastante buxixo da imprensa?
Havia um papo, lógico. Eu tinha uma história no Corinthians. Isso aí existiu. Mas era parte do oba-oba para mexer o clássico. Fiz estréia no Maracanã em dia de carnaval e tinha 70 mil pessoas. O Rio foi maravilhoso para me receber. Foi bonita a estreia, fiz três gols. Acho que nunca tinha feito três gols na vida. As bolas apareceram e fiz os gols...
Qual era a diferença entre Corinthians e Fluminense, São Paulo e Rio, futebol paulista e carioca?
O Rio é mais descontraído. No Rio, o pessoal vai para o estádio alegre. Se perde, não fica satisfeito, lógico. Mas em meia-hora já está no bate-papo. Em São Paulo é mais tenso. Torcedor vai ao estádio já nervoso, já querendo arrumar briga. Era muito mais light.
O momento de cada um dos clubes devia ajudar nisso, né?
O Fluminense seria como o São Paulo aqui na época. Mais tranquilo, não tinha tanta cobrança como havia com Flamengo, Corinthians ou qualquer time de massa. Aqui em São Paulo, qualquer jogo com o São Bento tinha 40 mil pessoas. Cobrança, necessidade de vencer, de ser campeão... No Fluminense é mais light, já foi campeão. Se perde, está tudo bem porque no ano seguinte ganha. Isso é diferente de jogar onde se exige tanto.
Mais no fim de sua carreira, o Corinthians já tinha saído da fila, o clima estava mais tranquilo. Pensou em retornar para encerrar a carreira?
Não. Fiquei um tempo parado, na Arábia. E Corinthians nunca é tranquilo. Vê o Flamengo. Foi campeão ano passado e está em crise esse ano. Se ganha um título, precisa ganhar outro.
Hoje o clube e a torcida reconhecem sua importância na história do clube?
Sim, claro. Fui botar meu pé na calçada da fama do Memorial do Corinthians. Outro dia fizeram uma enquete e fui eleito o melhor jogador da história do Corinthians, mesmo sem conquistar título. O torcedor tem uma ligação forte comigo, um reconhecimento. E a recíproca é verdadeira. Eu não tenho necessidade de agradar ninguém. E me aceitaram mesmo quando eu disse que era palmeirense na infância. Família italiana, pai palmeirense. Aí, fui fazer teste no Palmeiras e não fui aceito. E o Corinthians me abriu as portas. Eu não morro pelo Corinthians, porque não morro por futebol. Mas eu não gosto quando perde.
Para o garoto, como foi sair de uma família palmeirense e virar corintiano?
Eu vivia mais no Corinthians que na minha casa.
Como foi a transição?
Normal, pela maneira como fui recebido nos dois clubes. Aprendi a gostar do Corinthians. Foi natural, muito bom. E a família não pegou no pé. Se pegasse, eu não estaria ligando.
Naquela época, era a grande rivalidade da cidade. O São Paulo tinha torcida bem menor.
Era forte mesmo, e o prazer de ganhar era enorme. Mas era uma rivalidade sadia na época. Havia a semana do clássico e havia a expectativa. Os jogadores se respeitavam. Hoje não há mais isso. Tem violência, jogador jogando para o torcedor. Isso não é legal.
Você fala muito de como o Corinthians te recebeu. O que houve de diferente?
Fui bem recebido. Ainda me lembro. Fui recebido pelo Mendes, que foi meu companheiro no juvenil. Me botaram junto com os outros, me apresentaram. E fui muito feliz porque não fiquei muito tempo no juvenil e já subi. Foi maravilhoso. Eu morava aqui, no Brooklin, levantava 5 da manhã até o Anhangabaú, rua Direita, Praça da Sé, Pegava o São Judas-São João, ia até o ponto final e descia a rua para chegar ao Corinthians. Fazia isso todo dia, com o maior prazer. Adorava.
Era o clube mais longe que você poderia ter arranjado.
Mas fazia com prazer. Eu gostava. E, se não fosse recebido como fui, talvez não voltaria. Pelo contrário. Desde a primeira vez eu senti: “é esse aqui que vai me abrir as portas”. E foi.
Como era a relação com a torcida, ainda naquela época de fila?
Quanto mais aumenta a fila, mais aumenta a torcida. Acho que é normal, não só do Corinthians. É uma torcida fantástica, meu relacionamento é maravilhoso. Claro, existe cobrança, mas é maravilhoso. Na época, você descia do ônibus na entrada do Pacaembu. Faziam um corredor humano e você entrava. E todo mundo falava “vamos ganhar, vamos ganhar”.
E a imprensa?
Era bom que o jornalista que cobria o Corinthians era o mesmo sempre. Então, ele escrevia alguma coisa e a gente se via depois. Acabava existindo mais confiança. Veja minha apresentação no Flu. O cara foi fazer entrevista comigo. Levei ele na minha casa, era de São Paulo. O cara chegou aqui e meteu o pau: “Rivellino cospe no prato em que comeu”. Mentira, uma inverdade. Tudo para agitar o corintiano. Eu falava com o cara e ele não olhava na minha cara. Meu pai me ligou para perguntar o que havia acontecido. O cara já foi lá de má intenção. Pegou umas coisas e meteu pau em mim, comigo descendo o pau no Corinthians. Era raro isso na época. Hoje é mais comum.
Como foi a repercussão da imagem do Luís Pereira dando tapinhas nas costas na final de 74?
Quem brigou comigo foi a imprensa, não o torcedor corintiano. Foi uma pessoa que trabalhava na imprensa, o J Hawilla, que fez uma campanha contra mim. Na maldade, não sei por que ele fez isso. Tanto é que, 30 anos depois, ele me pediu desculpas. Tem de perguntar para ele. Não sei qual foi o intuito dele. E dei azar porque não tinha mais jogo, era férias. Não tinha o que falar, então falavam do Rivellino. Criaram um puta dum clima e acharam que o Rivellino era culpado pela derrota. Tanto que a foto é de uma falta que sofri e acabou dando origem ao gol.
Havia uma expectativa muito boa de que o tabu acabaria naquele ano. Como era isso dentro do elenco?
Era boa. Única coisa, nada contra o Sílvio Pirillo, mas se tivéssemos o Oswaldo Brandão, a chance era maior. A primeira partida foi no Pacaembu e empatamos 1 x 1. O Morumbi não tinha condições de jogo. O Brandão, muito malandro, pegou um presidente que não entendia nada de futebol, o Vicente Matheus, e levou o jogo para o Morumbi. Veio na quinta a notícia que o jogo era no Morumbi, mesmo com Morumbi em reforma. O Brandão disse que ia ter mais público, mais torcedor do Corinthians. Não quer dizer que, se fosse no Pacaembu, a gente ia ganhar. Mas o Morumbi tinha grama alta e o Palmeiras era mais técnico.
O time sentiu que aquela era a oportunidade da vida?
Sim. Dei tanto azar. Naquele ano não fizeram pontos corridos. Fizeram campeões de turnos na final. Fomos do primeiro turno e o Palmeiras do segundo. Na última rodada do returno, pegamos o Palmeiras. Se tivéssemos um treinador mais macaco-velho... Naquele jogo, entramos com o reserva. Era pra entrar com o time titular para tirar um jogador importante deles, abraçar o cara e forçar duas expulsões, ou correr muito e provocar desgaste deles. No final, a gente se esforçou, teve um jogador expulso e eles não. Ninguém abraçou o Ademir, o Dudu, para expulsar. Não é quebrar ninguém. É criar uma situação. Mas a expectativa era grande. Da maneira como foi feito o primeiro jogo, com 90% de torcedores do Corinthians no estádio.
Mesmo depois de sair da fila, o Corinthians era tido como um time regional. Só com o título de 90 é que virou nacional. E vocês estiveram muito próximos de um título nacional no Robertão de 69.
Fomos campeões do Rio-São Paulo em 66. Em 72 roubaram a gente no Rio, se não, decidiríamos com o Palmeiras. Deram pênalti. Foi um assalto. Tivemos duas oportunidades depois. Em Minas contra o Cruzeiro. E o time do Corinthians era bem inferior aos demais.
E o Robertão de 69?
Acontece. Batia na trave, não tínhamos muitas opções para ser campeões. Era só Paulista e Brasileiro. Ganhamos outras coisas, como Laudo Natel.
Você se lembra de alguma história em relação à torcida?
Corinthians tem todo dia uma história. O corintiano te ama. Tem torcedor que o Corinthians está acima da família. Todo dia você recebe carinho.
Hoje os jogadores mudam muito de clube. Na sua época, não. Os jogadores se perguntavam muito como era jogar no outro time?
Não tinha muito, não. Mas, realmente, os jogadores não mudavam muito. Eu ia terminar no Corinthians. Até tive oportunidade de sair. Em 71, pude ir para o Santos. Terminou meu contrato, mas o Santos queria que eu ficasse parado seis meses para desvalorizar o passe e me comprar. Era a oportunidade de jogar de novo com Pelé e Clodoaldo. Eu não ia ficar parado seis meses. Mas eu gostava do Corinthians. Era só um impasse de renovação. Acabei acertando.
Era o Vicente Matheus?
Não estou lembrado. Podia até ser.
Você falou que ele não entendia muito de futebol. Como era conviver com ele?
Ele via o clube. Era um administrador. Mas ele não queria saber. Se era para fazer um contrato pagando o mínimo possível, ele pagava. Primeiro era o interesse do clube, só depois o do jogador. Não queria saber se era o Rivellino, o Pelé, o Tostão. Mas o clube era bem administrado. Não tinha problema de atraso de salário. Era uma pessoa dedicada ao clube.
Era duro negociar com ele?
Era terrível. E você tinha esse problema da lei, do passe. Não dava para sair fácil do clube. Hoje o jogador não pertence ao clube. O jogador fica um ano, sai e o clube não recebe nada. E, na minha época, o mercado europeu era pequeno. Pouca gente saía.
Nenhum comentário:
Postar um comentário